segunda-feira, 2 de novembro de 2009

entulho e devastação











me dói no olho, com gosto.


e me seduz, lá no fundo, este senso da devastação, de paladar tão acre e desabrido.


bizarro, pungente, como que pontiagudo, me espicaça.


de um sabor tão próprio, me desperta nesta onda de novas qualidades.



o que pode fazer-se acompanhar de um furacão, de um tsunami? esta estética de cores duma mesma paleta, composições tão bem articuladas, climas verbosos.




quem ousa multiplicar, espelhar, confirmar tudo isso?


pois sei que, se somos invadidos, invadimos com a mesma sem-cerimônia.



e queria saber, onde é cabeça e onde é o rabo desta estória? porque, para mim, sempre vem a imagem da cobra que engole a própria cauda, este ciclo que não termina, começo e fim que se refletem, faces polidas e opostas duma mesma cena.



penso em como esta produção humana de objetos móveis e imóveis é gerada sob uma falsa espectativa da organização de idéias e ideais. as obras, objetos e cenas por fazer, as já feitas e as destruídas, todas no mesmo saco... nosso ofício será sempre o de nos organizarmos e de nos devastarmos.



profanos, profanamos, somos profanados.



quem colocou este entulho na rua do meu escritório? ah dona, não é entulho, não senhora...é o material aí da concessionária..ô, ô, ô dona, a senhora é da concessionária? porque não pode tirar foto aí não dona! ai meu filho, sou sua vizinha, pago IPTU desta rua e se você não quer que eu tire foto, tira esta coisa daí.
mas é agora, tá me entendendo?
... olha, sei que você vai me achar meio louca, mas acho isso tudo aqui, esta sua bagunça, muito linda demais da conta. por isso estou aqui, por isso quero a foto.


e não é que descubro que do entulho nascem flores?


Imagens

Robert Polidori – Tupelo Street, Nova Orleans, Lousiana, EUA, 2005.
Sônia Andrade – obras da linha 4 do metrô, São Paulo.


Ass. Sônia Andrade
aos segredos que as palavras são incapazes de contar.

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