quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

apôios (in) sustentáveis















em tantas vezes foi buscado o apôio
tantos planos, projetos, métodos e medidas
e o traço se desfez, abstraiu-se da sua materialidade, libertou-se da fórmula única, da sua função

onde se procurou o suporte, a renúncia
onde se exigiu o que se firma, o incorpóreo e tão vago

e, se vejo hoje estas estruturas em suspenso balanço,
corpos arquitetônicos livres das regras tão simples da sua gravidade,
imagino minha alma também suspensa
flutuando como vão protendido
sem muleta ou pilar, prumos, traveses ou andaimes
cabrestos curtos de madeira, concreto, metal. ou tão só apoios

tão fundamentais quanto dispensáveis
incompreensíveis para o olhar
são o desafivelar da minha alma
que, por vezes, também ousa planar no espaço
fingindo independência do que lhe (in) sustenta

insustentados
insustentáveis
in susten tudo
em sus penso tudo
suspensa em tudo
penso tudo



Imagens

Sônia Andrade – varanda de uma residência na rua Rússia
Danilo Rabak – obras de uma residência no seu bairro


Ass. Sônia Andrade

domingo, 3 de janeiro de 2010

considerações de fim de dezembro no mercado de Recife























sempre me perguntei como iria lapidar sentido e olhar sem manter meus canais absolutamente desinfibulados.
sempre me perguntei como iria perceber os sinais que me brotam naqueles dias que dividem meu tempo em tantos antes e depois, como paisagens recortadas por terremotos, sem procurar a intensa conecção entre meu corpo e a experiência espacial.


de um lado a infância e tudo que possa representar uma vida passada.
do outro, uma incomensurável e obscura distância a percorrer no tempo que ainda falta viver”
(“As Brasas” de Sándor Márai).



existem dias em que vivo experiências onde a linguagem simbólica da vida se apresenta de tal forma que tudo é advertência, tudo é indício, tudo é sinal.

sinto em mim o simulacro de um outro palco da existência, como se vindos de outros lugares, de outras vidas.

nestes dias, me deixo miscigenar nas diferentes formas do dispor, nos tantos meios de arranjar, nos diferentes gestos que definem tantos e tão diversos caminhos do usar e do desfrutar do espaço.

nestes dias, com gosto, me deixo brutalmente invadir por universos profanados, desabridos e convulsivos, delirantes, como que compostos em climas acres e úmidos, tão doces, tão lascivos.
acho que são estas tardes quentes dos trópicos. deve ser.
nestes dias, pergunto : onde foi desenhada a linha que partiu a regra do caos, a noite do dia, o senso do insólito?

nestes dias, pergunto : qual salvação possível para estas formas dispostas em redemoinho?
qual o possível despertar para os espaços que se formam em mim como aqueles sonhos insones, delírios quase obsessivos, febris, dos quais nunca acordo de fato, me perseguindo por anos.
netes dias, afinal, sei, sempre vão estar ali, me ocupando com seu poder de me amotinar, me atrair e me tomar.

nestes dias, não sei mais responder onde ficou a concretitude do que é de fato considerado possível, o limite do humano, a real separação entre cidade e selva, certo e errado, são e adoecido, ciso e loucura.
nestes dias, sou como médico e monstro num mesmo lugar.

ass. Sônia Andrade
imagens : Giorgio Giorgi Júnior - Mercado Central de Recife