sempre me perguntei como iria lapidar sentido e olhar sem manter meus canais absolutamente desinfibulados.
sempre me perguntei como iria perceber os sinais que me brotam naqueles dias que dividem meu tempo em tantos antes e depois, como paisagens recortadas por terremotos, sem procurar a intensa conecção entre meu corpo e a experiência espacial.
“de um lado a infância e tudo que possa representar uma vida passada.
do outro, uma incomensurável e obscura distância a percorrer no tempo que ainda falta viver”
(“As Brasas” de Sándor Márai).
ass. Sônia Andrade
(“As Brasas” de Sándor Márai).
existem dias em que vivo experiências onde a linguagem simbólica da vida se apresenta de tal forma que tudo é advertência, tudo é indício, tudo é sinal.
sinto em mim o simulacro de um outro palco da existência, como se vindos de outros lugares, de outras vidas.
nestes dias, me deixo miscigenar nas diferentes formas do dispor, nos tantos meios de arranjar, nos diferentes gestos que definem tantos e tão diversos caminhos do usar e do desfrutar do espaço.
nestes dias, com gosto, me deixo brutalmente invadir por universos profanados, desabridos e convulsivos, delirantes, como que compostos em climas acres e úmidos, tão doces, tão lascivos.
acho que são estas tardes quentes dos trópicos. deve ser.
nestes dias, pergunto : onde foi desenhada a linha que partiu a regra do caos, a noite do dia, o senso do insólito?
nestes dias, pergunto : qual salvação possível para estas formas dispostas em redemoinho?
nestes dias, pergunto : qual salvação possível para estas formas dispostas em redemoinho?
qual o possível despertar para os espaços que se formam em mim como aqueles sonhos insones, delírios quase obsessivos, febris, dos quais nunca acordo de fato, me perseguindo por anos.
netes dias, afinal, sei, sempre vão estar ali, me ocupando com seu poder de me amotinar, me atrair e me tomar.
nestes dias, não sei mais responder onde ficou a concretitude do que é de fato considerado possível, o limite do humano, a real separação entre cidade e selva, certo e errado, são e adoecido, ciso e loucura.
nestes dias, não sei mais responder onde ficou a concretitude do que é de fato considerado possível, o limite do humano, a real separação entre cidade e selva, certo e errado, são e adoecido, ciso e loucura.
nestes dias, sou como médico e monstro num mesmo lugar.
ass. Sônia Andrade
imagens : Giorgio Giorgi Júnior - Mercado Central de Recife
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