terça-feira, 17 de novembro de 2009

sinapses emendas


ai que hoje eu quero é o lápis macio e firme, escorregando na folha lisa.


ela suplica pelo texto, que já é seu, de tamanho justo e forma tão incorpórea quanto durável, possuindo gentilmente toda sua página, esta casa aberta para a diversão.


depois, preciso de energia, sem falta ou apagão.


preciso da sinapse dos cabos tensos, de todos os condutores elétricos, eletrificados, vias e caminhos nervosos.

preciso irromper no espaço imaterial os estilhaços dos juízos, sonhos, planos e imagens que ouso aqui confessar.


mas, se esta emenda me falha agora! ai se cai a conecção!

como satisfazer o caminho das idéias que querem drenar nestes meios já tão suturados e infibulados, fios estrangulados esquecidos no quarto escuro...


que pavor destes feixes débeis e fragmentados, alterados, defeituosos, cordas onde avançam imensidões de desejos que querem ser fato.

Imagem – “ entrada de energia do edifício na rua bela Cintra esquina com avenida Paulista, onde fui buscar minhas passagens para Recife”,
Sônia Andrade

ass. Sônia Andrade
para o meu leitor primeiro

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

patologia


“...como um doente acostumado afinal às dimensões espaciais de seu mal, vivia naquele aposento, que parecia construído sob medida para ele”.
As Brasas”, Sádor Márai

“...há um sujeito, mas ele não é, talvez seja só uma promessa. o que vai sendo, indo como pode”.
O nome do Cuidado”, Léo Lama
http://www.youtube.com/watch?v=R9guB_9O-YY

às enfermidades espaciais dispenso sempre os meus mais sinceros cuidados.
reparo de longe, com olhar de desvelo exclusivo, as deformidades, as decomposições, e tudo aquilo que carece do tão cultuado bom senso, da tão procurada saúde estética.

e aí começa o deleite da minha brincadeira...
inverto, cruzo, oponho, espelho papel e personagem da cena. doentes e patologias.

encontro, aqui e ali, neste ofício, um maníaco guloso que tudo quer ocupar, deflorar, desfrutar. tira da frente o que não lhe convém; ou engole; ou devassa. mas sempre se apossa. é a célula aumentada, sem estrutura, parasitária e maligna.

do outro lado, tão oposto quanto igual, o paciente, em sua acanhada fragilidade.
por vezes neurótico, dá valor a sua concretude e se agarra às “dimensões espaciais do seu mal”.
e ali fica. e ali incomoda. tortura. atormenta. vive.

e, tal qual tumor que não vai, fica.
se torna parte do novo corpo que, agora e para sempre, está condenado a ser assim. como catarata crônica que obscurece a paisagem e turva a vista panorâmica.

qual a medicina para a metástase das células que formam esses nossos elementos arquitetônicos? este corpo construído que se alterou de tão usado e abusado.

“qual é a minha medicina, qual é a sua medicina?”. (Léo Lama).

ass. Sônia Andrade
imagem : “vista da área comum de um edifício, com o vizinho que não quis vender seu terreno”,

Sônia Andrade

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

entulho e devastação











me dói no olho, com gosto.


e me seduz, lá no fundo, este senso da devastação, de paladar tão acre e desabrido.


bizarro, pungente, como que pontiagudo, me espicaça.


de um sabor tão próprio, me desperta nesta onda de novas qualidades.



o que pode fazer-se acompanhar de um furacão, de um tsunami? esta estética de cores duma mesma paleta, composições tão bem articuladas, climas verbosos.




quem ousa multiplicar, espelhar, confirmar tudo isso?


pois sei que, se somos invadidos, invadimos com a mesma sem-cerimônia.



e queria saber, onde é cabeça e onde é o rabo desta estória? porque, para mim, sempre vem a imagem da cobra que engole a própria cauda, este ciclo que não termina, começo e fim que se refletem, faces polidas e opostas duma mesma cena.



penso em como esta produção humana de objetos móveis e imóveis é gerada sob uma falsa espectativa da organização de idéias e ideais. as obras, objetos e cenas por fazer, as já feitas e as destruídas, todas no mesmo saco... nosso ofício será sempre o de nos organizarmos e de nos devastarmos.



profanos, profanamos, somos profanados.



quem colocou este entulho na rua do meu escritório? ah dona, não é entulho, não senhora...é o material aí da concessionária..ô, ô, ô dona, a senhora é da concessionária? porque não pode tirar foto aí não dona! ai meu filho, sou sua vizinha, pago IPTU desta rua e se você não quer que eu tire foto, tira esta coisa daí.
mas é agora, tá me entendendo?
... olha, sei que você vai me achar meio louca, mas acho isso tudo aqui, esta sua bagunça, muito linda demais da conta. por isso estou aqui, por isso quero a foto.


e não é que descubro que do entulho nascem flores?


Imagens

Robert Polidori – Tupelo Street, Nova Orleans, Lousiana, EUA, 2005.
Sônia Andrade – obras da linha 4 do metrô, São Paulo.


Ass. Sônia Andrade
aos segredos que as palavras são incapazes de contar.